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O Brasil
passou os últimos 20 anos de costas para o maior fenômeno
científico, tecnológico e industrial do pós-Guerra,
a microeletrônica. A revolução dos circuitos
integrados (CIs), chamada por alguns de a Terceira Revolução
Industrial, deixou no Brasil, pela falta de boas políticas
públicas, uma herança negativa que aparece, hoje,
na forma de um déficit anual médio de US$ 6 bilhões
na balança comercial de eletroeletrônicos, metade dele
em componentes, especialmente semicondutores, os chips que movem
o computador em casa ou o celular no bolso de cada um. O Brasil
também está fora de um mercado global de, só
em semicondutores, US$ 150 bilhões por ano, com projeção
de chegar a US$ 600 bilhões ainda nesta década.
Agora, uma onda mais avassaladora está a caminho. A microeletrônica
encontra-se no limiar de fortes mudanças em seu modelo tecnológico
e industrial. A mais importante delas é a dos sistemas complexos
embarcados na pastilha de silício, em inglês System
on a Chip (SoC). SoCs são chips inteligentes, moldados para
funções determinadas. Os chips valerão, cada
vez mais, pela quantidade de inteligência humana (software)
neles embarcada. Por isso mesmo, se o País não fizer
nos próximos anos um esforço sério, com planejamento
sistêmico e visão de longo prazo, mais do que importador
de lascas de silício, o Brasil será um comprador líquido
de inteligência. Dos outros. Hoje, a pastilha de silício
é commodity. Já o conhecimento, não.
A boa notícia é que esse jogo está no começo.
A segunda boa notícia é que, apesar do reduzido número
de doutores em microeletrônica no Brasil, existem alguns centros
de excelência estabelecidos ou em formação no
País. Também há um despertar crescente do governo
e das empresas para o problema. A má notícia é
que os ciclos de inovação são curtos e um número
crescente de países está se apressando, Coréia
e Taiwan à frente. Nesta partida, não há intervalo
de 15 minutos e o jogo não acaba em empate.
Como o País pode se posicionar no turbilhão de mudanças
que vem por aí? Em boa medida, a resposta está sendo
dada pelo principal centro brasileiro de pesquisa e desenvolvimento
em microeletrônica, o Laboratório de Sistemas Integráveis
(LSI) da Universidade São Paulo (USP). Se mobilizar seus
cientistas, pesquisadores e técnicos, com prioridade máxima
e recursos adequados, além de desenvolver uma abordagem do
problema com política industrial bem definida, o Brasil terá
lugar nesta que se pode chamar de segunda onda do chip, defende
o professor João Antônio Zuffo, diretor do LSI.
"Em 1888, surgiu o primeiro motor a indução,
de correntes alternadas; 30 anos depois, em 1918, a Siemens lançou
o motor com indução portátil, e em mais 30
anos, em 1948, os motores miniaturizados estavam no liqüidificador,
no vidro elétrico dos carros, em todo lugar", lembra
o professor Zuffo. "Com o computador é quase a mesma
coisa; em 1946 surgiu o primeiro, na National Academy, dos Estados
Unidos; 30 anos depois, em 1976, veio o computador portátil,
da Apple; 30 anos depois, em 2006, o computador será pervasivo.
Estará embutido nas mesas e fechaduras das casas, nos carros,
na medicina de ponta, em todo lugar", diz Zuffo. "A revolução
do SoC vai permitir isso", define.
E as possibilidades industriais e de negócios dessa onda,
quais são? "A variedade de CIs deverá aumentar
drasticamente, criando oportunidades para que novas empresas encontrem
seus nichos, tornando este momento único para implementar
iniciativas", disse Zuffo num texto escrito, há dois
anos, com doutores do LSI e do Centro de Componentes Semicondutores
(CCS) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em que defendia
o projeto de instalação, ao lado do LSI, de uma "sala
limpa" para prototipagem em microeletrônica, com apoio
da Motorola.
Olhando a partir de outro ângulo, o industrial, o texto dizia:
"É possível que as mudanças sejam tão
drásticas que a capacitação na tecnologia de
microeletrônica venha a ser um fator decisivo para a sobrevivência
das empresas do setor eletrônico."
O momento das mudanças drásticas já está
batendo à porta, acredita o professor Marcelo Zuffo, filho
e colaborador de João Antônio Zuffo no LSI.
"A bolha financeira e tecnológica mundial que se formou
a partir das tecnologias da informação estourou no
ano passado, questionando profundamente o modelo da indústria
de microeletrônica", ousa dizer Marcelo Zuffo. O modelo,
ainda hoje, tem se movido pelo que ficou conhecido como Lei de Moore,
segundo a qual a capacidade dos chips dobra a cada 18 meses. Ela
produziu, como se sabe, a geração de micros x86 -
os PCs 386, 486, 586 (Pentium). "Pois bem, o modelo industrial
decorrente da Lei de Moore está sendo questionado",
diz Zuffo filho.
Para tornar mais claro o seu raciocínio, ele conta: "Certa
vez fui a uma reunião de empresas interessadas na TV Digital
e a discussão era sobre Set Top Box, o coração
tecnológico que vai controlar a nova TV. Falavam de preço,
calculado em torno de US$ 300 a unidade. Eu disse: é possível
fazer por dez vezes menos, é possível fazer por US$
30. Quase fui posto para fora da sala", ele conta, com bom
humor.
Louco ou visionário? Cada um tire as suas conclusões:
nos últimos quatro anos, Marcelo Zuffo esteve trabalhando
no projeto da Caverna Digital do LSI.
A Caverna é um ambiente de realidade virtual com cinco faces
- quatro paredes e o chão. "As cavernas mais completas,
contando com o teto, têm seis lados, como na Universidade
de Illinois, nossa parceira", diz Marcelo Zuffo, que visitou,
nos últimos anos, as principais cavernas espalhadas pelo
mundo.
"No Brasil, quem tem uma caverna de dois lados é a Embraer,
suficiente para suas necessidades de projeto", informa. Na
USP, a Caverna pode, por exemplo, simular as condições
de operação de uma plataforma da Petrobrás
em mar severo, possibilitando aos pesquisadores calcular a resistência
dos dutos que chegam ao fundo do mar.
Os desenvolvimentos na caverna são inúmeros. Podem
servir para a medicina avançada ou incontáveis aplicações
que ponham a tecnologia a serviço do bem-estar social, sonha
Zuffo pai. Também servem para o Departamento de Defesa americano
projetar a guerra no Afeganistão, antes de ir ao combate.
Mas o que faz a Caverna do LSI uma caverna peculiar, especial para
o Brasil?
Conhecimento verde-amarelo, inovação. Como? Cavernas
desse tipo são alimentadas por supercomputadores, máquinas
muito sofisticadas que, quando estão na fronteira do conhecimento,
são submetidas a critérios de segurança nacional
dos EUA e não podem ser vendidas a outros países.
Marcelo Zuffo e sua equipe desenvolveram nos últimos anos
o conceito de cluster, ou supercomputador paralelo. No caso da Caverna
Digital do LSI, cinco PCs Pentium alinhados num gabinete de servidores
e coordenados entre si fazem o show. "O processamento paralelo
é como uma linha de montagem, onde há uma divisão
do trabalho", explica Marcelo Zuffo. "O pulo da gato é
fazer cada um dos PCs cumprir uma função, em perfeita
coordenação." Como numa orquestra, cada PC do
supercomputador paralelo é um músico com seu instrumento,
a partitura é o conjunto de softwares desenvolvido pelos
pesquisadores, os regentes. Depois de tudo, eis o resumo da ópera:
o LSI mudou o paradigma e derrubou preço destas máquinas.
Um supercomputador paralelo custa 20 vezes menos do que um supercomputador
típico. A Intel apóia o projeto e a Itautec já
adquiriu direitos de fabricação.
"É por isso que eu disse que o preço do Set Top
Box poderia cair de US$ 300 para US$ 30, tornando-o acessível
a todo mundo", diz Marcelo Zuffo. "O modelo atual da microeletrônica
está fundamentado em oferecer uma capacidade de processamento
maior do que precisamos", afirma. O SoC prospera nesta contradição.
"Não preciso de um chip com 400 mil portas em toda e
qualquer situação, só porque ele é a
última palavra da tecnologia", diz Marcelo Zuffo. "Com
software num chip de 100 mil portas, posso fazer mais com menos,
pois defino as funções de que preciso." SoC é
isso.
Não é por menos que, segundo dados da Semiconductor
Equipment and Materials International citados pelo professor Zuffo,
existe uma falta mundial de 100 mil engenheiros de microeletrônica
por ano. Apesar de todas as carências do País, o buraco
da agulha para o Brasil está na formação para
a revolução do SoC. Daí podem surgir pesquisas,
patentes e inovação industrial. Com um trabalho bem-feito,
acredita Zuffo, até mesmo a quase finada indústria
nacional de microeletrônica poderia renascer
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